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Como superar desafios e abordar temas como o pensamento computacional e a cultura digital no ensino básico foram alguns dos principais temas abordados durante o simpósio que reuniu professores, gestores e cientistas
Data da publicação: 19/05/2026

Foto oficial do evento, realizada em 8 de maio, no auditório Fernão Stella de Rodrigues Germano do ICMC (Fotógrafo: Reinaldo Mizutani).

 

A sala de aula é hoje um espaço bem diferente de alguns anos atrás. Em geral, os estudantes possuem celulares e usam a internet com frequência, assim como os docentes. Os desafios mudaram, e com eles, também as demandas escolares e de formação de professores. A inserção de conhecimentos computacionais no ensino básico é um dos principais desafios atuais e, por isso, docentes de diversos municípios e sistemas de ensino se reuniram no Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos, de 6 a 8 de maio, durante o Simpósio Brasileiro de Computação na Educação Básica (III SBC-EB).

Aproximando a computação — “Colocar a computação na educação básica vai além de colocar um computador ou internet em sala de aula”, isso é o que ensina Lina Garcés, professora do ICMC e uma das coordenadoras do III SBC-EB. Segundo ela, “ensinar computação é ensinar a resolver problemas. Esses problemas requerem um pensamento sistemático, de aplicação de técnicas, como o pensamento computacional”, explica.

Além disso, a docente conta que diversas outras tarefas importantes para a educação de forma geral podem ser aprendidas por meio da computação:  reconhecimento de padrões, pensamento algorítmico, otimização, identificação  de categorias e criação de modelos. “Há várias habilidades importantes para que estudantes possam não apenas trabalhar na área de tecnologia, mas em todas as áreas da vida”, destaca Lina.

Ela conta que também é papel da educação formar para um uso crítico das tecnologias: “Os estudantes precisam compreender como as tecnologias funcionam, como usar a internet de forma segura, evitar golpes, não cair em fake news, e proteger seus dados.”.

Com relação ao evento, além de aproximar os universos da computação e da educação, Lina se diz contente em notar uma maior conexão entre a Universidade e as redes de ensino. “Acredito que o evento marcou um novo cenário no ICMC. Ele permitiu entendermos os desafios das escolas e da realidade local. Agora, vamos  direcionar esforços, tanto por meio de projetos de pesquisa, ensino e extensão para contribuir com a implementação da computação na educação básica da região. No ICMC, temos excelentes pesquisadores em todas as áreas da computação. É essencial construir essas pontes para a boa implementação da computação aqui em São Carlos, que, além de ser a capital da tecnologia, possui institutos de computação maravilhosos”.

 

Professora Lina Garcés durante o III SBC-EB no ICMC (Fotógrafa: Heliz Petrechen).

 

Um dos pontos altos do evento foi a participação das professoras Valéria Santiago dos Santos Duarte, Rita de Cassia Mayumi Miyamoto, Bett Ribeiro, Adriana Alves da Silva, e alunas do Centro de Inclusão Digital (CID) da cidade de Araçariguama (SP), que apresentaram os resultados de uma parceria entre o ICMC e o CID. De acordo com Valéria, diretora do Centro, “desde 2025, nossas alunas participam da TechSchool, um campeonato de tecnologia voltado às meninas. Hoje, trouxemos nossas quatro equipes de 2026 para conhecer a USP, que é o sonho de qualquer menina, para apresentar nossas experiências e resultados”. Em seu município, Valéria conta que 100 meninas já participaram do projeto nestes dois anos, impactando a cidade positivamente.

A diretora também celebra que duas das equipes do Centro ficaram em terceiro lugar na TechSchool. “Além dessa conquista, fico orgulhosa da transformação dessas meninas e meninos também, pois o sucesso do projeto fez com que alguns garotos quisessem participar”. Os projetos desenvolvidos pelas meninas são enviados para a Technovation Girls, competição a nível internacional.

Já a professora Rita afirma estar “com grande perspectiva de ampliar toda essa história no segundo semestre, em uma segunda edição do curso de programação web”, curso executado também em parceria com o ICMC. “Estamos organizando ações de letramento digital para preparar outras meninas para futuras edições do Technovation Girls”, conta.

Por meio do projeto, Rita indica que as alunas ganharam uma nova perspectiva. “Mostramos que elas podem ser programadoras, desenvolver aplicativos, que podem ir para a área de tecnologia, ou seja, que podem ir para a área que elas quiserem”. Valéria complementa indicando ser notável um “aumento das perspectivas desses jovens, que passam a vislumbrar a possibilidade de chegar a uma universidade e ter um futuro melhor. Alguns de nossos estudantes antes eram muito introspectivos, por exemplo, e hoje já conseguem desenvolver uma apresentação na USP”.

Também chamou a atenção as discussões a partir de experiências promovidas por Aurélio Bianco Pena, doutorando em Ensino de Ciências na USP e professor da disciplina Cultura Digital no Colégio São Carlos. Ele afirma perceber “que os alunos constroem um olhar diferente para as ferramentas que usam no dia a dia, mais crítico”. Na disciplina, Aurélio conta que são trabalhados os temas “criptografia, inteligência artificial (IA), direito autoral, programação de computadores, proteção de dados e segurança digital”.

Durante o III SBC-EB, Aurélio conduziu a roda de conversa que contou com a presença de professores de disciplinas computacionais e tecnológicas de cidades da região, e explorou o conceito de colonialismo digital – fenômeno que explica a dominação tecnológica do Norte Global, que extrai dados, recursos e mão-de-obra do Sul Global, agora também na fronteira digital – como ponto de partida para promoção da soberania e de uma transformação, de consumidores para propositores das tecnologias digitais.

Outra participação especial foi a presença de pós-graduandos da primeira turma do mestrado profissional em ensino de computação (PROFCOMP), oferecido em rede nacional. Para Paulo Rogério Oliveira, professor da ETEC Uirapuru, em São Paulo, mestrando do PROFCOMP, tanto a oportunidade de participar do evento quanto a de cursar o mestrado profissional têm sido valiosas para sua complementação técnica e pedagógica: “Vou poder levar isso para a sala de aula, para ajudar os alunos na realização de projetos e proposição de solução de problemas”.

Complementarmente, Marcos Feitosa, professor de educação física no SESI e no Colégio Evoluções em São Vicente (SP), e estudante do PROFCOMP, afirma: “O ensino de computação está modificando a minha mente”. O professor explica que a computação é de grande auxílio para o planejamento pedagógico e para a realização de atividades práticas. “Já quero explorar o pensamento computacional na educação física”, acrescenta.

Sobre o Simpósio, Marcos afirma: “muito do que estamos vendo agrega ao que podemos fazer no PROFCOMP”. Já, de acordo com Paulo, as iniciativas, práticas, vivências e projetos discutidos, em especial o apresentado pela equipe de Araçariguama, estão fomentando muitas ideias. “Estamos saindo daqui cheios de energia. Está sendo muito enriquecedor!”, conta.

 

Equipe de professoras e estudantes da cidade de Araçariguama (SP) durante o III SBC-EB no ICMC (Fotógrafo: Reinaldo Mizutani).

 

Principais desafios a serem enfrentados — Para a diretora Valéria, os principais desafios da inserção da computação no ensino básico são “a falta de equipamentos, que infelizmente é uma realidade geral, de capacitação dos professores e de material didático”. Ela acredita que a Base Nacional Comum Curricular computação deve ser implementada porque a tecnologia é, hoje, base para qualquer área: “Mas ainda temos um grande caminho a percorrer nessa implementação”.

Outro desafio trazido à tona pela professora Rita se relaciona com o menor acesso à formação em tecnologias em cidades com menor população. “Além de atuar em Araçariguama, também trabalho em uma cidade maior e percebo diferenças importantes no acesso às oportunidades educacionais e tecnológicas. Ampliar projetos como o Technovation Girls, principalmente para as redes de ensino de cidades menores e mais carentes, é justamente oferecer um novo olhar para a educação justo onde as crianças mais precisam”, explica.

O professor Paulo identifica mais um desafio: o desenvolvimento de “conceitos abstratos da computação, como a lógica de programação”. No entanto, ele  indica um caminho, que é a aplicação a problemas computacionais concretos.

Outro ponto, levantado pela docente Lina, é a baixa oferta de formações que capacitam os professores ao bom uso da computação na educação. “Além disso, é preciso melhorar as condições de trabalho dos professores do ensino básico, para que eles possam fazer cursos de formação. Por exemplo, aqui no ICMC, temos o curso de especialização em computação aplicada à educação, o PROFCOMP, e oferecemos cursos de extensão para professores. Contudo, observamos dificuldades em acompanhar os cursos, por falta de flexibilidade horária ou por sobrecarga de trabalho”.

Já, segundo o professor Aurélio, há ainda o desafio da falta de infraestrutura para preparação pedagógica prévia e implementação de novas disciplinas e currículos: “Assim como a maioria dos docentes, quando surgiu a disciplina de Cultura Digital, fiquei um pouco perdido, mas sabia que ela poderia fazer a diferença na formação dos estudantes, já que o mundo de hoje é intrinsecamente digital”.

Outro ponto de atenção, conforme indica Aurélio, é a baixa oferta de materiais de qualidade voltados à Cultura Digital. “Por exemplo, temas como plataformização e segurança digital nunca foram comuns no ensino básico. Consequentemente, é difícil encontrar subsídios didáticos para esses assuntos, especialmente em Português”.

 

Oficina de robótica oferecida durante o III SBC-EB no ICMC (Fotógrafa: Heliz Petrechen).

 

Sobre o evento — Este ano, o ICMC foi a sede da região Sudeste do III SBC-EB. Lina conta que “na região Sudeste, as edições anteriores ocorreram no Rio de Janeiro e Minas Gerais, respectivamente. Para a terceira edição, fomos selecionados como o polo regional, muito por conta do mestrado profissional de ensino de computação (PROFCOMP), que iniciou este ano”.

Nesta edição, participaram alunos de graduação e de pós-graduação, grupos de pesquisa e professores das redes de ensino. “Tivemos palestras, minicursos, rodas de conversa, apresentação de trabalhos, oferecidos, inclusive, pelos grupos de extensão e de pesquisa do ICMC. Demonstramos que o Instituto é realmente um polo de estudo da área de ensino de computação e integramos a comunidade em nossa casa”, celebrou Lina.

Nos três dias de evento, foram amplamente discutidos práticas exitosas no ensino de computação, desafios encontrados e como podem ser superados, de maneira a garantir acesso a conhecimentos críticos no mundo contemporâneo.

O SBC-EB ocorre em concomitância com o Simpósio Brasileiro de Educação em Computação (EduComp), promovido pela Sociedade Brasileira de Computação (SBC) anualmente. Assim, algumas das atividades ocorriam simultaneamente nas cinco regiões brasileiras. Sobre essa coordenação, Lina explica: “Essa organização se deu por conta da Comissão Especial de Educação em Computação (CEduComp)”.

O III SBC-EB realizado no ICMC contou com muitas outras atividades, que não caberiam em uma única reportagem. Para conferir o cronograma completo de apresentações, mesas redondas, palestrantes e tudo o que rolou no evento, acesse: https://www.educompbrasil.org/simposio/2026/sbc-eb/programacao/sao-carlos.

 

Fotografia dos professores participantes do III SBC-EB no ICMC, que conta com a primeira turma do PROFCOMP (Fotógrafo: Reinaldo Mizutani).

 

Texto: Marcos Vinícius Ribeiro Ferreira – Bolsista de Jornalismo Científico FAPESP (processo número 2025/24158-0).
Sob supervisão de Denise Casatti, da Assessoria de Comunicação do ICMC/USP

Agradecimentos: À Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP, processo número 2025/24158-0, vinculado ao processo número 2023/10100-4) pelo auxílio financeiro concedido no formato de uma bolsa de jornalismo científico, e ao professor Ricardo Marcondes Marcacini.

 

 

Mais informações:
Sobre o III SBC-EB: https://icmc.usp.br/noticias/7462-icmc-recebe-atividades-do-simposio-brasileiro-de-computacao-na-educacao-basica

Sobre o PROFCOMP: https://icmc.usp.br/noticias/7438-usp-sao-carlos-recebe-primeira-turma-do-mestrado-profissional-em-ensino-de-computacao 

Atendimento à imprensa
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