No Brasil, a adoção da IA na educação é marcada por um uso intenso por parte dos profissionais da educação, mesmo sem necessariamente um preparo ideal (Crédito da imagem: Helena Lopes, Unsplash)
A inteligência artificial (IA) deixou de ser algo do futuro. Justiça, saúde, educação, segurança pública, em todas essas áreas, a IA já atua, por mais imperceptível que isso possa ser. Contudo, qual é a extensão dessa atuação? E quais os desafios associados a essa implementação?
Para explorar essas questões, o Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos, preparou uma série especial de reportagens. Serão abordados exemplos reais de projetos desenvolvidos por pesquisadores brasileiros, e discutidas as implicações éticas e sociais do uso desses sistemas em instâncias governamentais. Para saber mais, acompanhe as demais reportagens desta série.
IA na educação brasileira – No Brasil, a adoção da IA na educação é marcada por um uso intenso por parte dos profissionais da educação, mesmo sem necessariamente um preparo ideal. Segundo a Pesquisa Internacional sobre Ensino e Aprendizagem Talis de 2024, cujos dados compõem um relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), 56% dos professores brasileiros afirmam usar ferramentas de IA, percentual superior à média de 36% entre os países da OCDE.
Aqui, os docentes indicam o uso principalmente no planejamento de aulas e atividades. Entre alunos do ensino médio que usam internet, 70% já utilizaram IA generativa em atividades escolares. No entanto, a maioria relata falta de orientação docente sobre como usar essas ferramentas de forma crítica ou para identificar conteúdos falsos.
Nesse sentido, a IA está transformando os espaços educacionais, tanto favorecendo os processos de ensino-aprendizagem e a gestão dos sistemas educacionais quanto trazendo consigo novos desafios. Nesta reportagem, discutimos mais a fundo essas questões.
O cenário global – A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) lidera hoje o debate internacional em defesa de uma abordagem humanística para a integração da IA na educação, concebida como grande aliada rumo ao Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 4, “Educação de Qualidade”.
Já em 2019, foi criado o Consenso de Beijing, que recomenda aos governos o planejamento de políticas de IA promotoras da aprendizagem e redutoras da exclusão digital. A Unesco enfatiza que a IA deve ser controlada por humanos, projetada de forma ética, não discriminatória e transparente, garantindo o bem-estar e a autonomia de professores e alunos.
Documentos como IA e o futuro da educação da Unesco e Inteligência Artificial na educação: usos, oportunidades e riscos no cenário brasileiro, do Núcleo de Informação e Controle do Ponto BR (NIC.BR), sugerem que o sucesso da IA na educação depende de esforços coletivos e intencionais, que demandarão: a capacitação de professores não apenas no uso técnico, mas na mediação ética e pedagógica da IA; a criação de marcos regulatórios que garantam a soberania tecnológica e protejam os direitos dos aprendizes; e a integração do ensino sobre IA no currículo, preparando os jovens para serem co-criadores responsáveis da tecnologia e cidadãos críticos na era digital.
IA na prática educativa – A IA na educação não é tão nova quanto se imagina, afirma a professora Lina Garcés, do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos. Os chatbots e os grandes modelos de linguagem (LLM) se popularizaram recentemente, mas a IA em si já estava nas mãos das pessoas nos aparelhos celulares. “Na área de pesquisa em IA na educação, ela começa a ser explorada há cerca de 15 anos, para apoiar correções de provas e sugerir atividades com base no perfil do aluno, entre outras aplicações”, Lina explica.
O próprio ICMC, assim como outras instituições de pesquisa e ensino, utiliza uma IA para prever a evasão estudantil e acompanhar tendências que podem ser mitigadas. “Análises de evasão ou de desempenho utilizam modelos bem específicos. Agora, com os modelos de IA generativa (IAG), como o ChatGPT, abriram-se muitas outras possibilidades”, afirma a docente.
Uma das aplicações mais exploradas, segundo Lina, é a dos tutores inteligentes, nos quais com um bom uso de IAG é possível orientar os estudos do aluno, seguindo práticas pedagógicas já conhecidas como método socrático ou de andaime (scaffolding), mudando o foco da transmissão de respostas para a construção do pensamento. No entanto, a professora também expressa preocupação com o mau uso, ou uso sem orientação, da IAG por parte dos alunos: “Temos observado que os alunos estão deixando de fazer buscas e de analisar fontes variadas para tirar conclusões sobre um texto e criar sua própria opinião sobre um assunto. Em vez disso, muitos apenas aceitam o resumo fornecido pela IAG. Isso tem um impacto negativo no processo cognitivo dos alunos.”
Algumas habilidades que antes eram construídas em sala de aula podem, agora, fazer falta no futuro desses estudantes, como fazer um resumo, identificar partes importantes de um texto ou interpretar uma fórmula matemática para resolver um problema diferente. Com a popularização da IA, as formas de avaliar os estudantes também precisam mudar. “Nós sabemos que os alunos usam a IAG para gerar um texto ou código que antes eram gerados por eles. Então, uma das opções é reforçar as avaliações teóricas e práticas sem apoio de tecnologias, para conseguirmos entender o que o estudante realmente aprendeu.”
Alguns pontos positivos do uso da IA identificados por Lina são: “estudo dirigido com tutores inteligentes, auxílio a professores na proposta de atividades instrucionais e apoio na elaboração de feedbacks relacionados ao planejamento de aulas”. Contudo, há um aspecto negativo a ser considerado: “Alunos e professores ainda não sabem muito bem como utilizar essas ferramentas.” Ela indica a necessidade de criar uma cultura crítica sobre o uso da IAG nos espaços educativos, semelhante ao que ocorreu com a popularização da internet e dos buscadores digitais. É preciso conversarmos sobre o uso correto dessas tecnologias e o impacto no ensino-aprendizado em todos os níveis de educação.
Além disso, o papel do docente é outra questão que precisa ser debatida. Superar o ensino tradicional e bancário torna-se cada vez mais urgente, pois as informações agora são de fácil acesso; basta perguntar ao agente inteligente. Todavia, mais do que nunca, o professor deve ser, nas palavras de Lina, “um curador, um orientador, um guia”. Para isso, os profissionais da educação devem saber como funcionam essas ferramentas, como usá-las de forma ética e suas limitações, como por exemplo, as alucinações (invenções apresentadas nas respostas fornecidas pela IAG).
Para Lina, a questão não é proibir o uso da IAG em sala de aula. Em algumas disciplinas, o uso pode não ser permitido, mas, em outras, as atividades podem ser planejadas para que os estudantes utilizem essas ferramentas de forma adequada. “Nesse sentido, planejo algumas aulas nas quais oriento os estudantes sobre o uso correto da IAG na realização de atividades específicas”, diz a docente. Segundo ela, os alunos normalmente ficam surpresos com a proposta, pois é comum a percepção de que o uso da IAG em sala de aula é proibido.
Neste ano, o Ministério da Educação (MEC) publicou um documento orientador sobre caminhos curriculares e práticas éticas de uso de IA nas escolas – Inteligência Artificial na Educação Básica – no qual se prevê que seja empregada:
1 – Na aprendizagem: com chatbots educacionais, ambientes virtuais de aprendizagem personalizados, espaços maker e laboratórios criativos, bem como experiências de imersão e de realidade virtual ou aumentada.
2 – No apoio ao professor: com a correção automatizada e detecção de plágio, geração e coprodução de materiais didáticos e planos de aula, sequências didáticas ou apresentações, apoio ao planejamento instrucional, ampliação da acessibilidade nos materiais didáticos.
3 – Na gestão: com a análise de dados educacionais, o planejamento de cursos, turmas e grades horárias e a previsão de trajetórias escolares.
4 – No currículo: com a inclusão de ensino com IA e sobre IA, letramento em IA integrado a outros letramentos digitais, IA orientada a problemas sociais e a contextos locais, e currículos baseados em direitos e cidadania digital.
Sobre o documento orientador, Lina comenta: “É importante que esse referencial da IA no ensino básico tenha sido publicado com poucos anos de diferença da popularização da IAG, situação que demorou muito com outras tecnologias. Por exemplo, o Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA Digital) demorou 20 anos, pois as redes sociais datam de 2007, e há anos já sabemos de seus impactos nas crianças e adolescentes. É imprescindível termos diretrizes que promovam o bom uso das tecnologias digitais.”
Professora Lina Garcés durante o III Simpósio Brasileiro de Computação no Ensino Básico, realizado no ICMC (Crédito da imagem: Reinaldo Mizutani)
IA no ensino superior – Atualmente, universidades, incluindo a USP, têm publicado orientações sobre o uso de IA na pesquisa e no ensino. Em maio deste ano, a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) aprovou a criação de novos cursos de graduação, entre eles, o de Inteligência Artificial e Ciência de Dados, com vagas para o vestibular de 2027. Já o Conselho Nacional de Educação (CNE) prevê a publicação de regras sobre uso de IA até o final deste ano.
Além disso, a Sociedade Brasileira de Computação (SBC) lançou neste ano o Mestrado Profissional em Ensino de Computação em Rede Nacional (PROFCOMP), com o objetivo de melhor preparar os professores atuantes no ensino básico a implementarem o complemento à Base Nacional Comum Curricular de Computação. Lina coordena o mestrado profissional no ICMC, atualmente a única instituição de nível superior no Estado de São Paulo a oferecer o programa.
IA nos sistemas de ensino – Os sistemas de ensino no Brasil têm sido motivo de significativa insatisfação na última década. Segundo dados de dois relatórios da OCDE, Panorama do Governo: América Latina e Caribe 2024 e Resultados da Pesquisa da OCDE sobre os fatores que influenciam a confiança nas instituições públicas na América Latina e no Caribe 2025, a satisfação com o sistema educacional no país vem aumentando, passando de cerca de 55% para 64% nos últimos 10 anos.
Com a popularização da IA, projetos que utilizam essa tecnologia surgiram com o intuito de melhorar a coleta, processamento e tratamento dos dados, permitindo uma melhor gestão da educação baseada em evidências. Um deles é o Observatório Nísia Floresta, que acompanha a efetivação da Agenda Nacional para a Formação de Pessoal de Nível Superior junto à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).
A construção da Agenda foi capitaneada pelos professores Marcelo Augusto Santos Turine, ex-reitor da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS); Ricardo Marcondes Marcacini, docente do ICMC; e por Alice Plakoudi Souto Maior, da Coordenação de Planejamento e Monitoramento de Resultados (CPMR) da CAPES.
“O objetivo da Agenda Nacional é divulgar os temas estratégicos prioritários das unidades federativas brasileiras, onde precisamos de mais pessoas qualificadas para os grandes projetos de desenvolvimento de cada estado. A agenda nasceu da escuta e dos planejamentos estratégicos dos estados, por meio de oficinas estaduais, e em seguida, pela consulta pública do Plano Nacional da Pós-Graduação (PNPG) da CAPES”, explica Turine.
Para a elaboração da Agenda, foram ouvidos atores do governo, da academia, da indústria e da sociedade civil de todos os estados brasileiros. “No meu estado, o Mato Grosso do Sul, precisamos conhecer os temas estratégicos mais explorados pelos programas de pós-graduação. A ideia do Observatório é compartilhar os temas estratégicos mais e menos explorados no Brasil reduzindo assimetrias territoriais para garantir que a pós-graduação colabore com o desenvolvimento estratégico de nosso país”, completa Turine.
Para desenvolver essa tecnologia inteligente capaz de analisar cerca de um milhão de itens da produção intelectual provenientes do Sistema Nacional de Pós-Graduação (SNPG), a convite da UFMS, formou-se uma equipe de trabalho composta pelos seguintes docentes do ICMC: Solange Oliveira Rezende, Diego Furtado Silva, Adenilso da Silva Simão e Ricardo Marcondes Marcacini, coordenador técnico do projeto, além de estudantes de graduação, mestrado, doutorado e de pós-doutorado do ICMC e da UFMS.
Dessa forma, no Observatório da Agenda Nacional são apresentados os 470 temas estratégicos declarados pelas unidades federativas como prioritários para a formação e fixação de mestres e doutores e para a atração de pós-doutores. Esses temas foram agrupados em 20 macrotemas em conformidade com a Agenda Nacional. Dentre os macrotemas, 12 aparecem como prioritários em todas as unidades federativas do Brasil:
- Desenvolvimento sustentável e regional.
- Políticas públicas, gestão e governança.
- Empreendedorismo, economia verde e desenvolvimento econômico.
- Transformação digital, tecnologias da informação e comunicação e inteligência artificial.
- Indústria, inovação tecnológica e negócios.
- Cultura, povos originários e saberes tradicionais.
- Mudanças climáticas, meio ambiente e recursos naturais.
- Diversidade, equidade e direitos humanos.
- Saúde, qualidade de vida e tecnologias.
- Biodiversidade, biotecnologia e bioeconomia.
- Agropecuária, agricultura familiar e segurança alimentar.
- Educação, inovação pedagógica e formação de professores.
O Observatório também está mapeando a quantidade de mestres e doutores nos temas estratégicos da Agenda em cada unidade federativa, bem como suas trajetórias após a pós-graduação. Além disso, uma análise detalhada de todas as dissertações, teses, artigos científicos e outros tipos de trabalhos acadêmicos tem sido realizada para aferir quais temas estratégicos estão sendo mais explorados. “Sem o uso da IA, nós não conseguiríamos fazer o mapeamento e a própria gestão do volume de dados dos programas de pós-graduação das universidades brasileiras. Ela está nos permitindo operacionalizar e implementar a Agenda Nacional como uma agenda transversal de desenvolvimento do Brasil”, revela Turine.
Ele conta da gratidão por fazer parte desse projeto nacional, que tem trazido contribuições para a governança da educação superior, principalmente por estar alinhado ao componente de impacto socioeconômico dos programas de pós-graduação para a sociedade e para o avanço do país.
Esse impacto é percebido pelo Observatório por meio do índice de capacidade instalada da pós-graduação, ou seja, quantos docentes, pós-doutores e profissionais titulados estão instalados nos temas estratégicos no país e em quais regiões, e também como o impacto mensurado da pós-graduação nos temas estratégicos contribui para a execução de outras agendas, como a dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e a da Nova Indústria Brasil (NIB), política industrial do governo federal com o objetivo de impulsionar o desenvolvimento da indústria nacional até 2033. Segundo Turine, os dados da capacidade instalada da pós-graduação e da contribuição para os ODS e outras agendas transversais estarão disponíveis no portal do Observatório até o final do ano.
Texto: Marcos Vinícius Ribeiro Ferreira – Bolsista de Jornalismo Científico FAPESP (processo número 2025/24158-0).
Sob supervisão de Denise Casatti, da Assessoria de Comunicação do ICMC/USP.
Agradecimentos: À Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP, processo número 2025/24158-0, vinculado ao processo número 2023/10100-4) pelo auxílio financeiro concedido no formato de uma bolsa de jornalismo científico, e ao professor Ricardo Marcondes Marcacini.
Leia mais reportagens da série:
A inteligência artificial na gestão pública: descubra como a tecnologia já está transformando os sistemas que nos governam – https://icmc.usp.br/e/42l5n
A inteligência artificial na gestão pública: como sistemas jurídicos têm integrado a tecnologia em suas análises – https://icmc.usp.br/e/zvlif
Mais informações
Sobre o PROFCOMP: https://icmc.usp.br/pos-graduacao/profcomp
Referencial para o uso e desenvolvimento responsáveis de inteligência artificial na educação: https://www.gov.br/mec/pt-br/media/segape/referencial-oficial-pt.pdf
Documento orientador Inteligência Artificial na Educação Básica: https://www.gov.br/mec/pt-br/escolas-conectadas/documentos/ia-educacao-basica.pdf







