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Enquanto Maria Aparecida Ruas torna-se a primeira mulher a receber o título de professora emérita do Instituto; José Carlos Maldonado consagra-se como o quinto professor homem a ser reconhecido com a mais alta honraria acadêmica pelo ICMC
Data da publicação: 20/03/2020

“O mérito deste prêmio é coletivo. Em especial, agradeço ao Gaspar, meu apoio mais sólido, meu ombro amigo, parceiro em todas as horas. Esta homenagem não aconteceria sem o seu total apoio sempre”, disse Cidinha.

 

Duas trajetórias diferentes que guardam pelo menos três pontos singulares em comum. O primeiro é a vida escolar integralmente percorrida em escolas públicas. O segundo é uma certeza: a de que grandes ideais só podem ser alcançados com grandes parcerias, ou seja, trabalhando em equipe. Por último, as duas trajetórias têm como cenário o Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos.

Foi no ICMC que Maria Aparecida Ruas e José Carlos Maldonado encontraram total liberdade e apoio para construírem suas histórias com distinção e alcançarem a mais alta honraria da carreira acadêmica: o título de professor emérito. Os dois ressaltam que o Instituto propiciou plenas condições para o exercício da arte de educar e pesquisar.

“O matemático inglês Godfrey Harold Hardy disse em 1941 que, assim como o pintor e o poeta, o matemático é um fabricante de padrões. Mais ainda, que os padrões na matemática são mais permanentes, porque são feitos com ideias. Essa definição se adapta como uma luva à teoria de singularidades, área de minha atuação em pesquisa”, disse Maria Aparecida, carinhosamente conhecida como Cidinha, após receber o título de professora emérita.

A definição lembrada por Cidinha também se adapta como uma luva à trajetória dos dois docentes homenageados pelo ICMC. Por mais que ambos tenham percorrido caminhos diversos, há um padrão que pode ser reconhecido: tanto Cidinha quanto Maldonado estão aposentados, continuam atuando como professores sêniores, e se destacaram pelas atividades de ensino, pesquisa e extensão realizadas, contribuindo, de modo notável, para o progresso da USP.

 

À futura geração, representada na plateia pelas netas Pietra e Bianca, Maldonado se dirigiu no encerramento de seu discurso: “É importante para as futuras gerações a garantia ao acesso universal ao conhecimento, com investimentos contínuos e significativos, com políticas de inclusão e permanência, para que não se percam os talentos existentes de norte a sul do País.”

 

A primeira mulher – Professora do ICMC desde 26 de outubro de 1981, Cidinha nunca teve dúvidas sobre o que queria ser quando crescesse: a matemática sempre foi uma das suas principais motivações para a vida. “Sempre quis ser professora, gosto de ensinar e já dava aula particular de matemática desde os meus 12 anos para alunos do ensino fundamental. A interação com os estudantes é o que mais gosto, sejam eles da graduação, pós-graduação ou até mesmo aqueles que já se formaram e ainda entram em contato. Aprendo com eles todo dia”, revela.

Cidinha chegou ao ICMC em fevereiro de 1971 para fazer o mestrado, logo depois de concluir a Licenciatura em Matemática em 1970 pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP), em Araraquara. Sob orientação do professor Gilberto Francisco Loibel, obteve o título de mestre em 1974.

Loibel participou ativamente da criação do ICMC, oficializada em 28 de dezembro de 1971, a partir do então Departamento de Matemática da Escola de Engenharia de São Carlos (EESC). Ele escreveu o primeiro livro brasileiro sobre teoria de singularidades, publicado em 1967, quando ministrou um curso sobre o assunto no 6º Colóquio Brasileiro de Matemática. “Loibel orientou os primeiros alunos de mestrado e doutorado nessa área, principalmente no período de 1970 a 1985. Muitas das dissertações e teses que supervisionou foram pioneiras nos temas abordados. Um dos matemáticos mais brilhantes que conheci”, diz Cidinha.

 

 

“Um dos matemáticos mais brilhantes que conheci”, disse Cidinha sobre seu orientador no mestrado, o professor Loibel.

 

“Na ocasião, o Instituto era uma pequena comunidade de apenas 19 professores e 11 funcionários”, lembra a docente. Atualmente, há 127 professores e 106 funcionários. “O professor Achille Bassi, matemático italiano contratado por ocasião da fundação da EESC em 1953, foi o primeiro diretor do novo Instituto, e o professor Loibel coordenava o programa de pós-graduação. Os dois, junto com Nelson Onuchic e Odelar Leite Linhares, foram nossos pioneiros, eram, então, os líderes do Instituto emergente”, completa.

Aliás, Onuchic recebeu o título de professor emérito em 1983; já Odelar e Loibel foram homenageados in memoriam em 2015, em uma cerimônia que também concedeu a honraria ao professor Hildebrando Munhoz Rodrigues. As contribuições de Cidinha e Maldonado se somam, agora, a desses outros docentes, levando a ICMC a um total de seis professores eméritos.

“Redobrada alegria receber esta homenagem pelas mãos da primeira mulher que ascende à posição de dirigente máxima desta instituição”, declarou Cidinha na cerimônia solene em que obteve o título entregue pela diretora do ICMC, Maria Cristina Ferreira de Oliveira. “Acredito que parte importante do grande desenvolvimento que o Instituto alcançou nesses anos foi consequência da capacidade que tivemos não apenas de somar nossas semelhanças, mas principalmente de usar nossas diferenças a favor do objetivo comum de transformar o ICMC em um centro de excelência em ensino, pesquisa e prestação de serviços à comunidade”.

Depois do mestrado, Cidinha concluiu o doutorado em 1983, sob orientação de Luiz Antonio Favaro, que, por sua vez, tinha sido o primeiro aluno de doutorado de Loibel. Além do trabalho como pesquisadora e do amor à sala de aula, ela assumiu diversos cargos de direção no Instituto: foi chefe do Departamento de Matemática, presidente da Comissão de Pós-graduação por duas vezes, presidente da Comissão de Pesquisa e da Comissão de Biblioteca, além de vice-diretora na gestão do professor Paulo Masiero.

A emoção de relembrar essa trajetória marcou o discurso de Cidinha no palco do auditório Fernão Stella de Rodrigues Germano na tarde de 29 de novembro de 2019. Mas a voz da professora emérita ficou embargada neste momento singular: “O mérito deste prêmio é coletivo. Em especial, agradeço ao Gaspar, meu apoio mais sólido, meu ombro amigo, parceiro em todas as horas. Esta homenagem não aconteceria sem o seu total apoio sempre”. Foi o apoio sólido de José Gaspar Ruas Filho que conduziu Cidinha ao palco naquela tarde, tal como sempre. Professor aposentado do ICMC, Gaspar assistiu à cerimônia ao lado dos três filhos.

 

 

Professor aposentado do ICMC, Gaspar assistiu à cerimônia de entrega do título de professora emérita a Cidinha ao lado dos três filhos do casal.

 

Filhos da escola pública – Assim como Cidinha, Maldonado deixa claro que só teve a oportunidade de exercer com plenitude a profissão que escolheu porque sua vida escolar se desenvolveu integralmente em escolas públicas. Quando ainda morava em Lucélia, sua terra natal, Maldonado iniciou a carreira profissional: foi funcionário em uma loja de acessórios de peças e posto de gasolina, em uma companhia de seguro e professor particular. Até que ingressou na USP, em 1974, para cursar Engenharia Elétrica na EESC.

“Morei cinco anos no alojamento estudantil, período muito enriquecedor e de muitas lembranças. Saudades da família do aloja”, disse o professor durante a cerimônia solene em que recebeu o título de professor emérito, na tarde de 6 de março de 2020. Ele diz que a permanência na USP só foi possível por causa dos recursos que recebeu: bolsa alimentação e auxílio do Fundo Universitário de Bolsas Estudantis (FUBE) do Centro Acadêmico Armando de Salles Oliveira (CAASO).


Da engenharia para a computação foi um pulo. Ainda na graduação, Maldonado fez iniciação científica, monitoria e também uma ênfase em computação eletrônica no ICMC, conquistada junto com o diploma da EESC em 1978. O caminho depois da graduação definiu o futuro da carreira do professor. Em 1979, conquistou uma vaga no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), onde foi assistente de pesquisa e, em 1983, concluiu seu mestrado. “Era o início de uma relação duradoura com a área de teste de software”, salienta.

No ano seguinte, ainda como funcionário do INPE, Maldonado foi para o Canadá trabalhar com desenvolvimento de software para satélites, na SPAR Aerospace. “Em 1985, quando ingressei como professor, o ICMC tinha 50 docentes, 52 servidores técnico-administrativos e era dirigido pelo professor Odelar Leite Linhares”, conta. Na sequência, inicia o doutorado na Unicamp, que finaliza em 1991.

Entre as diversas atividades administrativas que realizou em paralelo à carreira como pesquisador e docente, Maldonado foi diretor do ICMC de 2010 a 2014, cargo que assumiu depois de ser vice-diretor de 2006 a 2010. Já coordenou o Programa de Pós-Graduação em Ciência da Computação e Matemática Computacional do Instituto e também presidiu a Comissão de Relações Internacionais.

 

Maldonado ressaltou, em seu discurso, que teve o prazer de dar aulas, em seus primeiros anos de docência no ICMC, à atual diretora do ICMC, professora Maria Cristina.

 

Em paralelo à atuação no ICMC, teve uma participação fundamental na Sociedade Brasileira de Computação (SBC). Em 1997, recebeu um convite para atuar como diretor de educação. Nessa função, contribuiu para a consolidação dos currículos de referência em computação. Também atuou como vice-presidente da SBC de 2003 a 2007 e, de 2007 a 2011, foi presidente da instituição. Atualmente, é membro do conselho da SBC, cargo que ocupará até 2021.

Além disso, Maldonado foi coordenador de área em várias agências de fomento, como CAPES, CNPq e FAPESP. Hoje, continua atuante, tanto como professor sênior no ICMC como coordenador adjunto acadêmico da área de Computação na CAPES.

Outra frente de trabalho de Maldonado é a busca por fortalecer a relação academia-indústria e as colaborações em prol da formação de recursos humanos qualificados. Ele liderou várias redes de pesquisa, com destaque para o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Sistemas Embarcados Críticos (INCT-SEC) e para o Projeto de Cooperação Acadêmica (Procad), estabelecido entre o ICMC, a Universidade Federal de Alagoas e a Universidade Estadual de Maringá.

Aliás, a inquietude de Maldonado foi destacada como uma de suas características mais marcantes pelo vice-reitor da USP, professor Carlos Hernandes, durante a cerimônia no dia 6 de março no ICMC: “Quando ele foi diretor do Conselho Gestor do campus da USP, em São Carlos, deu um trabalho danado. Toda hora estava com uma pasta rosa, com uma folha na mão. Ele era presidente do Conselho, ele mesmo fazia uma solicitação e assinava. E a gente corria atrás dele: segura o Maldonado! A cabeça dele estava o tempo todo pensando em fazer atividades, sempre no espírito produtivo da academia, preocupado principalmente com a questão social de integração e valorização do campus.”

A neta de Maldonado, Pietra, 9 anos, parece ter herdado a inquietude do avô. A caminho do auditório Fernão Stella de Rodrigues Germano, acompanhada da mãe e de Bianca, a irmã mais nova, Pietra dispara uma série de perguntas: “Por que o vovô vai receber essa homenagem? O que ele fez? Por que poucas pessoas ganham isso?”. Enquanto quem está em volta tenta explicar as contribuições do avô, espontaneamente ela conclui: “Ele é mesmo especial, né? Sabia que, se não fosse ele, eu não teria descoberto meu talento?”. A curiosidade também me invade: qual talento é esse Pietra? “Hipismo”, responde sem hesitar.

A essa futura geração, representada na plateia por Pietra e Bianca, Maldonado se dirigiu no encerramento de seu discurso naquela tarde: “É importante para as futuras gerações a garantia ao acesso universal ao conhecimento, com investimentos contínuos e significativos, com políticas de inclusão e permanência, para que não se percam os talentos existentes de norte a sul do País. Importante a oferta de espaços de qualidade de lazer, esporte e cultura, a exemplo de universidades líderes no mundo”.

Tanto Maldonado quanto Cidinha sabem muito bem quanto o acesso ao ensino público e gratuito pode mudar vidas e ajudar a construir as trajetórias dos nossos futuros professores eméritos.

 

Maldonado é, hoje, professor sênior no ICMC e atua como coordenador adjunto acadêmico da área de Computação na CAPES.

 

 

Texto: Denise Casatti – Assessoria de Comunicação do ICMC/USP

 

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