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Resgatar e preservar as histórias de vida de pesquisadores é um dos objetivos deste texto, que faz parte da série “Perfis ICMC”. A cada mês, uma nova história será publicada e todas farão parte do livro comemorativo do cinquentenário do Instituto, a ser p
Data da publicação: 16/11/2022

 

 

Os pássaros coloridos que estampam a blusa da professora Maria Aparecida Soares Ruas estão em sintonia com o hall de entrada de sua casa, circundada pelas sombras das árvores que a habitam em volta e pelas muitas orquídeas dispostas nos vasos que enchem as prateleiras acomodadas próximas a um dos muros. Aqui, é fácil se esquecer de que ainda estamos em São Carlos. É quase como um oásis dentro da cidade, escondido em meio ao verde que o circunda.

O hall é um cômodo iluminado pela luz natural que transpassa as portas de vidro, conectando-o ao ambiente externo. Dentro, abriga uma mesa de madeira clara com quatro cadeiras, que se transformou no local de trabalho da professora todas as manhãs, desde o início da pandemia do coronavírus, em março de 2020.

Do hall, é possível acessar a sala de estar que abriga o piano com as teclas desnudas e onde uma partitura repousa, aguardando o momento de se tornar música. À direita do piano, um móvel acomoda aparelhos de som e uma pequena parte da coleção de discos de vinil que se espalham por outros armários da casa. A cada vez que o marido viajava a São Paulo e trazia de lá um novo lote de discos, a professora de matemática já avisava que seria preciso comprar também uma nova casa para abrigá-los.

A música que permeia esse ambiente ocupa também um espaço privilegiado no desenho da vida dessa geômetra, hierarquicamente disposta logo depois da área reservada à família e à matemática. Há quatro anos, ela voltou a estudar piano assiduamente. Agora, as aulas são online. Muito diferentes de quando começou a dedilhar o instrumento pela primeira vez, aos sete anos de idade na cidade de Lins, no interior de São Paulo, onde nasceu.

Naquele início, depois de algumas aulas, desistiu. Mas o encanto voltou aos 13 anos, quando retomou o aprendizado e ganhou um piano de seus pais. Dali em diante, só parou depois de ingressar na Licenciatura em Matemática, na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Araraquara, posteriormente incorporada à Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP).

Carinhosamente conhecida como Cidinha, a professora diz que gosta de qualquer tipo de música boa, não importa se é brasileira, francesa, americana, popular ou clássica. Entre os artistas prediletos estão Chico Buarque, Caetano Veloso e Lenine.

 

O homem na Lua; a matemática na Terra No dia 20 de julho de 1969, enquanto Neil Armstrong tornava-se o primeiro homem a pisar na Lua, Cidinha dava seus primeiros passos para se tornar uma pesquisadora em matemática. Ela estava em Poços de Caldas, Minas Gerais, participando do  7º Colóquio Brasileiro de Matemática, que aconteceu de 6 a 26 de julho de 1969.

Coordenado pelo professor Gilberto Francisco Loibel, que futuramente seria seu orientador no mestrado, o evento contou com 312 participantes, 15 conferências ministradas por especialistas convidados e diversas comunicações de resultados de pesquisa. Tornou-se, ainda, um marco para a história da matemática no Brasil porque foi quando se deu a fundação da Sociedade Brasileira de Matemática (SBM).

Para Cidinha, participar de um evento daquela magnitude foi impactante: pela primeira vez, ela teve a oportunidade de estabelecer contato com a pesquisa em matemática. Dadas as limitações de comunicação daquela época, em que até um telefone fixo raramente estava disponível, os alunos tinham pouco acesso às informações sobre o que ocorria no universo acadêmico. Ela só ficou sabendo do Colóquio porque o professor Loibel fez propaganda da iniciativa, pessoalmente, aos estudantes da Licenciatura em Matemática de Araraquara.

Décadas mais tarde, precisamente em agosto de 2021, durante a cerimônia de posse da nova diretoria da SBM, realizada de forma remota, Cidinha foi homenageada como Associada Honorária pela instituição.

Até poucos dias antes do evento eu não tinha ideia que iria receber essa homenagem, foi uma grande surpresa. Fiquei muito emocionada, feliz e honrada com a lembrança, ainda mais porque desde a década de 70, quando essas honrarias começaram a ser concedidas, apenas 26 cientistas foram homenageados.

A paixão de Cidinha pela matemática transparece na fala delicada, calma e pausada, com a qual é capaz de ensinar, de forma descomplicada, conceitos abstratos e complexos:

Quando você olha para um fenômeno, espera-se que, para ele ser tratado do ponto de vista matemático, você associe a ele equações. Mas quando olhamos para uma equação, podemos muitas vezes representar suas soluções no espaço. Então, em vez de olhar apenas para as equações, você também pode olhar para desenhos, para a geometria dos fenômenos. Eu sou uma geômetra, meus padrões, mesmo os mais abstratos, têm uma representação geométrica. Prefiro ir do concreto para o abstrato, do particular para o geral.

Cidinha explica que, para um geômetra, é natural que o ponto de partida de seus estudos seja um desenho, uma imagem ou uma ideia geométrica. Só depois é possível avançar para um conceito abstrato, passível de ser empregado para compreender muitas outras formas existentes no mundo e que se assemelham à que originou aquele estudo.

 Não é atoa que, na sala de Cidinha no ICMC, no primeiro andar do bloco 3, chama a atenção um quadro pendurado na parede, à direita da mesa em que ela se senta para trabalhar. A obra foi presente de um amigo, Cláudio Mendes, que também foi professor do Instituto. A admiração da professora pelo quadro era tão grande que, quando se aposentou, Cláudio o deixou com ela. Na imagem, destaca-se uma espécie de pulseira tridimensional, uma superfície com características tão peculiares que foi nomeada pelo matemático Christopher Zeeman em 1976 como “bracelete umbílico”. A superfície ganhou fama quando o artista Helaman Ferguson a materializou em uma escultura de bronze de 69 centímetros chamada Umbilic Torus. Em 2012, reproduzida em tamanho colossal (8,5 metros de altura pesando 65 toneladas), a obra foi inaugurada nas proximidades do centro de estudos em física e matemática da Stony Brook University, em Nova York.

Por que Cidinha admira tanto essa imagem? Ela é um típico exemplo do campo de pesquisa ao qual a professora se dedica:

O matemático inglês Godfrey Harold Hardy disse em 1941 que, assim como o pintor e o poeta, o matemático é um fabricante de padrões. Mais ainda, que os padrões na matemática são mais permanentes, porque são feitos com idéias. Essa definição se adapta como uma luva à Teoria de Singularidades, área de minha atuação em pesquisa. Padrões, na Teoria de Singularidades, são formas associadas a um fenômeno científico. As singularidades são pontos especiais que distinguem os padrões. É o que acontece, por exemplo, em computação gráfica, no problema de descrever objetos a partir de imagens do mesmo.

Mas o que são esses pontos especiais que fogem do padrão. A professora Cidinha ensina:

Uma singularidade é uma palavra geral que classifica muitos tipos de comportamentos diferentes do comportamento padrão. Um ponto de bifurcação, por exemplo, indica uma mudança na forma do fenômeno, portanto, indica uma singularidade. Mas nem todo fenômeno singular tem um ponto de bifurcação. Uma superfície no espaço, sem singularidades, é suave. Ela não tem quinas, não tem cantos, vértices.

Para exemplificar melhor o conceito, Cidinha pega um livro nas mãos:

A superfície desse livro tem singularidades ao longo dos pontos de encontro dos lados. Mas nem sempre um ponto de encontro é uma singularidade. Se você une duas semirretas e elas viram uma única reta, você não tem singularidade. Mas se você as une de tal forma que formem um ângulo, aí você já tem um ponto singular.

Para tornar mais clara a explicação, Cidinha recorre às palavras do matemático japonês Heisuke Hironaka, um dos primeiros a atuar na área da Teoria de Singularidades, laureado em 1970 com a Medalha Fields, que, na matemática, correspondente ao prêmio Nobel. Ela cita uma entrevista de Hironaka, publicada em 2005 pela American Mathematical Society, em que o pesquisador diz: “Muitos fenômenos são interessantes, ou algumas vezes desastrosos, porque eles têm singularidades. Uma singularidade pode ser um cruzamento ou alguma coisa que, de repente, muda de direção. Existem muitas coisas assim no mundo, e é por causa disso que o mundo é interessante. De outra forma, o mundo seria completamente plano. Se tudo fosse suave, então, não haveria romances e filmes. O mundo é interessante por causa das singularidades”. O matemático japonês acrescenta ainda: “Sem singularidades, você não pode falar em formas. Quando você faz uma assinatura, se não há cruzamentos, pontas afiadas, é simplesmente um rabisco”.

Em julho de 1969, a jovem Cidinha, estudante do terceiro ano da graduação, já deixou registrada sua singular assinatura na ata de criação da SBM.

 

Uma trajetória singular Depois do impacto daquele primeiro contato com a pesquisa em matemática durante o Colóquio, Cidinha sabia que só havia um caminho a seguir: a carreira acadêmica. A trajetória da pesquisadora no ICMC começou em fevereiro de 1971, quando iniciou o mestrado, logo depois de concluir a Licenciatura em Matemática em 1970. Sob orientação do professor Gilberto Francisco Loibel, obteve o título de mestre em 1974.

O Professor Loibel foi o introdutor da Teoria de Singularidades no Brasil e o fundador do Grupo de Singularidades de São Carlos. Durante um estágio de dois anos em Berkeley, de 1960 a 1962, ele conheceu o matemático francês René Thom, um dos grandes nomes da Geometria e Topologia do século passado, ganhador em 1958 da Medalha Fields. Juntamente com o matemático americano Hassler Whitney, René Thom formulou e idealizou a Teoria de Singularidades. Loibel acompanhou as aulas de Thom e se encantou com a nova teoria. Voltando ao Brasil, iniciou a formação de pesquisadores nesta área, orientando os primeiros alunos de mestrado e doutorado nessa área, principalmente no período de 1970 a 1985. Muitas das dissertações e teses que supervisionou foram pioneiras nos temas abordados, graças ao brilhantismo de Loibel e ao seu contato direto com o idealizador da teoria. Meu orientador no doutorado, Luiz Antonio Fávaro, foi o primeiro aluno de doutorado de Loibel, e um dos principais impulsionadores do jovem grupo de pesquisa dedicado a estudar o tema no Brasil. 

Hoje, esse grupo de pesquisa é um dos maiores do mundo em Teoria de Singularidades e um dos mais ativos na área. Foi, ainda, um dos impulsionadores da internacionalização da pesquisa no ICMC, seguindo os passos do pioneiro Loibel, autor do primeiro livro brasileiro sobre o assunto Singularidades das Aplicações Diferenciáveis , resultado de um curso ministrado durante o 6º Colóquio Brasileiro de Matemática.

Além do trabalho como pesquisadora, ela assumiu diversos cargos de direção no Instituto: foi a primeira mulher a se tornar chefe do Departamento de Matemático do ICMC; presidiu a Comissão de Pós-graduação por duas vezes; também foi presidente da Comissão de Pesquisa e da Comissão de Biblioteca, além de vice-diretora na gestão do professor Paulo Masiero. Participou, ainda, do planejamento e organização da segunda avaliação departamental da USP, juntamente com o então vice-reitor e presidente da Comissão Permanente de Avaliação (CPA), professor Hélio Nogueira da Cruz, momento em que a professora exerceu o cargo de vice-presidente da Comissão.

A emoção de relembrar essa trajetória marcou o discurso de Cidinha no palco do auditório Fernão Stella de Rodrigues Germano na tarde de 29 de novembro de 2019, quando recebeu o título de professora emérita do ICMC. A voz da professora ficou embargada nesse momento especial:

O mérito deste prêmio é coletivo. Em especial, agradeço ao Gaspar, meu apoio mais sólido, meu ombro amigo, parceiro em todas as horas. Esta homenagem não aconteceria sem o seu total apoio sempre.

Naquela tarde, de mãos dadas com Cidinha, José Gaspar Ruas Filho a conduziu ao palco, tal como sempre fez. Professor aposentado do ICMC, ele assistiu à cerimônia ao lado dos três filhos.

 

 

Cidinha e Gaspar

Na tarde em que recebeu o título de Professora Emérita do ICMC, Cidinha foi conduzida ao palco pelo esposo, o professor José Gaspar Ruas Filho. (Foto: Reinaldo Mizutani)

 

 

A matemática do amor Se a vida de Cidinha pudesse transformar-se em uma imagem geométrica de múltiplas dimensões, com certeza, seria repleta de pontos singulares, tal como o vestibular. Foi quando ela se encontrou pela primeira vez com José Gaspar Ruas Filho. Adolescentes, os dois estavam tentando uma vaga no recém-criado curso de Licenciatura em Matemática em Araraquara. Os dois foram aprovados, mas Gaspar tinha prestado vestibular no IME-USP e foi estudar lá.

Só que a vida dele em São Paulo estava muito difícil, ele morava com os tios do outro lado da cidade em relação à USP. Aí, depois de um mês e meio, mais ou menos, ele desistiu de São Paulo e veio para Araraquara.

Ainda no primeiro ano da graduação, os dois iniciaram um namoro. No fim do curso, havia duas alternativas para que o casal prosseguisse junto na pós-graduação: uma era vir para o ICMC e outra era enveredar pela área da informática na Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro. Mas os dois resolveram ficar em São Carlos, especialmente porque já conheciam o professor Gilberto Loibel.

Diferentemente da vida amorosa cheia de pontos de intersecção, as carreiras desses dois matemáticos do ICMC sempre prosseguiram por linhas paralelas. “Nunca trabalhamos juntos. Nós começamos a pesquisar em áreas separadas quando chegamos ao ICMC para fazer mestrado e nunca fizemos sequer um artigo juntos”, revela Gaspar.

Naquele mesmo ano em que começaram o mestrado no ICMC, em 1971, os dois foram contratados como professores na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Araraquara, onde tinham acabado de se formar. No dia 19 de fevereiro de 1972, eles se casaram e, em 1973, nasceu a primeira filha do casal: Janaína. “Eu me lembro muito de que o ICMC sempre fez bastante parte da minha vida. Eu vinha aqui na sala dela e às vezes ficava esperando na cantina”, recorda-se a primogênita, que é formada em Engenharia de Computação pela UNICAMP e trabalha no Instituto de Pesquisas Eldorado, em Campinas.

Cidinha conta que, quando Janaína nasceu, demorou para compreender as mudanças que a maternidade traz para a vida de uma pesquisadora, especialmente quando se está no início da carreira. Ela relata que encontrou dificuldades para finalizar o doutorado, iniciado na Brown University, nos Estados Unidos, país para onde o casal se mudou em 1975, levando a pequena Janaína. Ela só conseguiu defender a tese em 1983, quatro anos depois de retornar ao Brasil, já sob orientação do professor Luiz Antonio Fávaro.

No retorno à terra natal, em 1979, Cidinha chegou ao país grávida do segundo filho, José Augusto, que nasceu em 1980. No ano seguinte, foi a vez de dar a luz à Juliana, a caçula.

― Apesar desse período difícil, eu consegui curtir os bebês. Durante a licença maternidade, eu me dediquei a eles. Depois, sempre tive ajuda e consegui encontrar uma garota que cuidou muito bem dos dois até completarem dois anos, quando foram para a escola.

    Hoje, José Augusto é economista e professor universitário na FACAMP, em Campinas; enquanto Juliana é formada em direito e seguiu a carreira de diplomata, trabalha no Itamaraty em Brasília. Os três filhos não escondem a admiração que nutrem pela mãe, que sempre conseguiu equilibrar muito bem as muitas demandas da vida acadêmica e da vida em família.

Filha de Noêmia e Antônio, os dois funcionários públicos municipais em Lins, Cidinha sempre estudou em escolas públicas e queria ser professora de matemática desde criança. Na lousa de sua sala, enquanto desenha formas singulares e não singulares, é possível enxergar o prazer que a geômetra tem por ensinar. Aos 12 anos, ela já dava aulas particulares de matemática para alunos do ensino fundamental.

 ― A interação com os estudantes é do que mais gosto, sejam eles da graduação, pós-graduação ou até mesmo aqueles que já se formaram e ainda entram em contato. Aprendo com eles todo dia.

Como professora, ela revela a principal diretriz que segue: “jogar no time do aluno”. Uma mensagem que a emocionou, recebida por e-mail em outubro de 2021, comprova que a prática docente acompanhou sempre essa diretriz:

 

“Boa tarde professora Cidinha!
Tudo bem? Espero encontrá-la com muita saúde!
Aqui é seu ex-aluno, que cursou Geometria Analítica em 1986.
Era minha última matéria para me formar… E eu não tinha passado.
Estava sem dinheiro, não tinha mais como me sustentar em São Carlos, e fui pedir mais uma chance de prova.
Eu tinha dois vizinhos que estavam fazendo pós-graduação (acho) em matemática e pedi a ajuda deles.
Prontamente me ensinaram Geometria Analítica e eu passei com minha última chance.
Passaram-se 35 anos e queria lhe agradecer pela oportunidade que me deu.
Hoje tenho dois filhos formados, tenho minha empresa há mais de 27 anos, e tudo deu certo com sua ajuda.
Professora, muito obrigado pela oportunidade que me deu naquele momento.
Nunca esquecerei o que fez por mim.”

 

Texto: Denise Casatti – Assessoria de Comunicação do ICMC-USP
Vídeo: Renato Francoi Amprino – Assessoria de Comunicação do ICMC-USP

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